Corpos suados

Lembranças foram feitas para não serem esquecidas, principalmente as boas que mesmo depois tenham se transformado em pesadelo.

Situação: você está com a pessoa que gosta, sente atração, tesão, dorme ao lado dela feito um dois de paus e não avança o sinal. O mais estranho: como uma boa e intensa ariana eu jamais teria deixado de avançar o sinal logo na primeira oportunidade. E eu deixei.

Chegou um momento em que não aguentei. Meu corpo pediu, a boca secou, os olhos vidraram-se naquela imagem que estava de costas para mim. Minha mão direita ensaiava um movimento brusco de acariciá-la, mas não o fiz.

Minha respiração tornou-se ofegante e minha voz sumiu quando apenas disse: vira pra mim?

Ela fez charme e a minha voz sumindo mais ainda repetiu a pergunta que ecoou em meus ouvidos como um estrondoso não até eu ver sua imagem virando-se para mim, olhando em meus olhos.

- Queria você – eu disse.

- Queria?

Não, eu não ia deixar escapar esse momento único que não estava sendo só meu, era nosso.

Respiração forte, aproximação de bocas, olhos fechados, beijo de esquimó antes do primeiro toque labial. Mão que segura nuca e beijo mais longo, mais intenso, mais faminto. Olhos abrem, olhos fecham, bocas procuram se engolir. Mão boba que escorrega daqui para lá e atrevidamente tira o que sobra, corpo que é jogado e no mesmo compasso se joga, se encaixa.

Vai, vem, sobe, desce, desliza, sente uma explosão, mãos se encontram, se apertam e assim se sobe para um beijo do doce sabor mais diverso da face da Terra. Os movimentos não cessam, corpos suam e não se desgrudam, tornam-se apenas um.

Duas pessoas, duas cabeças, duas bocas, olhares intensos que se encontram, palavras entrecortadas, línguas que se contorcem, mãos que buscam pontos estratégicos. Vai, vem, chega outra explosão. Os corpos continuam ali, unidos, sentindo cada coração pular e pulsar aquele momento que acabou de passar, instantes que ficam gravados.

- Fica assim um pouquinho?

Um beijo na testa. Um beijo nos olhos.

Um corpo pende para o lado e enlaça o outro enquanto conversam um pouco. E esses dois corpos têm a certeza de terem seus suores impregnados um no outro. Mesmo que não mais se vejam sabem entre si que esse momento único existiu. Apenas eles e mais ninguém.

Filho de surto

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